Contrastes...

        Sete da manhã, apanho o metro
        É obeso e moreno o maquinista
        Na carruagem paira um silêncio aberto
        Apenas um jovem que lê uma revista.
        Vejo, claramente é “literatura” de futebóis
        Na capa brilha o grande artista
        Cristiano Ronaldo o rei dos heróis.

        Na paisagem furtiva
        Embalada pelo som da locomotiva
        Vão surgindo modernos tractores
        Conduzidos por velhos lavradores. 

         Até ao Porto uma hora de viagem
         Que lentidão, que bonomia
         Tanta estação, tanta paragem
         Já estamos no século XXI? Quem diria! 

         Mesmo perto do alaranjado Bolhão
         Desce a madame do Mercedes com ar compenetrado
         Na mão de prata segura um lulu anão
         Muito macio, muito bem tratado,
         Mas à velha que vive de compaixão
         Vira altiva a cara para o lado. 

          Nas montras a luz e o esplendor
          Calças de ganga rotas na Zara
          Saias curtas e garridas na Analogia
          É verdade que a vida está cara
          Tanto dinheiro por uma ninharia! 

          Dizem que é a produção em massa
          Que é a era do pronto-a-vestir
          Só sei que não acho graça
          Chineses e espanhóis a nos invadir
          Mas dizem que é o mal necessário
          Para o país progredir.

          Ao cimo do jardim da Cordoaria
          Avisto um grupo de drogados
          Pálidos, esqueléticos, sem alegria
          Parecem barcos abandonados.
          Ou restos vis duma romaria.

           Anoiteceu num instante
           No regresso ao lar
           Dois namorados
           Despedem-se beijados pelo luar
           E os trabalhadores cansados e esfomeados   
           Só pensam em descansar.

                                                 CC

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